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O que a série Ruptura revela sobre dissociação e estresse laboral

  • Foto do escritor: Thaíse Marcião
    Thaíse Marcião
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura

A série Ruptura (Severance), da Apple TV+, não passou despercebida: foi nomeada a 27 prêmios, incluindo o Emmy e o Globo de Ouro, conquistando público e crítica com sua estética fria, narrativa inquietante e uma metáfora poderosa sobre o mundo do trabalho contemporâneo. No centro da trama está uma premissa perturbadora: funcionários de uma grande corporação se submetem a um procedimento que divide suas memórias entre vida pessoal e profissional. Dentro da empresa, não sabem quem são fora dali; fora do escritório, não têm ideia do que fazem no trabalho.


A série mistura ficção científica com crítica social, e sua popularidade revela o quanto esse tema ecoa na realidade de milhares de pessoas. A dissociação que os personagens vivem — literalmente se tornando duas versões de si mesmos — é um espelho simbólico de algo que muitos trabalhadores experimentam subjetivamente: o desligamento emocional como forma de sobreviver à pressão, à falta de sentido e à exaustão dos ambientes corporativos.


Dissociar para aguentar


Na psicologia, a dissociação está frequentemente ligada a situações de trauma. É um mecanismo de defesa que o cérebro usa para suportar dores psíquicas intensas, criando uma separação entre a consciência e a experiência dolorosa. Em Ruptura, essa separação é levada ao extremo. Os “inters”, como são chamados os funcionários que estão "dentro" da empresa, vivem como autômatos, sem vínculos externos, sem memórias, sem autonomia. Já os “outies”, suas versões do lado de fora, vivem sem saber o que acontece durante suas horas de trabalho.


Embora ainda não exista tecnologia para separar mentes como na série, a ideia ressoa: quantas pessoas não se sentem emocionalmente ausentes em seus próprios empregos? Quantos precisam esconder suas dores, emoções e até seus valores para “funcionar” dentro da lógica corporativa?


Estresse laboral e anestesia emocional


A Organização Mundial da Saúde reconhece o estresse laboral e a Síndrome de Burnout como problemas sérios, marcados por esgotamento, distanciamento afetivo e queda no desempenho. Ruptura dramatiza esses sintomas de forma simbólica. A desconexão dos personagens com o que fazem — e o total desconhecimento do sentido de suas tarefas — representa uma crítica direta à alienação no trabalho contemporâneo.


Em muitas organizações, o excesso de controle, a vigilância constante e a desumanização das relações criam ambientes propícios a esse tipo de ruptura psíquica. São empresas onde não se pode demonstrar vulnerabilidade, questionar regras ou exercer autonomia. O corpo está ali — a mente, nem tanto.


Trauma organizacional: o elefante na sala


Há um tipo de trauma pouco discutido, mas amplamente vivido: o trauma organizacional. Ele não se limita a eventos extremos. Pode ser fruto da repetição diária de microagressões, metas inalcançáveis, exclusão, medo constante ou dinâmicas abusivas. São experiências que marcam, silenciam e, com o tempo, adoecem.


Ruptura evidencia como esse tipo de cultura molda não só o comportamento, mas a identidade dos indivíduos. Os personagens deixam de ser sujeitos e se tornam engrenagens de um sistema impessoal. Quando o trabalho exige que você anule partes de quem é para se encaixar, algo está profundamente errado.


Para além do entretenimento: um alerta


O sucesso de Ruptura, suas 27 indicações e a forte identificação do público mostram que a série acerta em cheio ao representar as angústias do trabalhador moderno. Sua narrativa fria e inquietante serve como alerta: a cultura corporativa que valoriza apenas performance, enquanto ignora saúde mental, é insustentável.


Mais do que discutir equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, é hora de questionar as estruturas que obrigam os profissionais a se fragmentarem para sobreviver. Afinal, que tipo de sistema demanda que alguém precise se “desligar” para conseguir cumprir sua função?


Ruptura não é apenas uma ficção de sucesso. É um espelho. E talvez esteja na hora de olharmos de volta.




 
 
 

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